sábado, 12 de maio de 2012

A Transcendente Essência da Amizade

  A TRANSCENDENTE ESSÊNCIA DA AMIZADE *

            Há pessoas com as quais convivemos eventualmente ou circunstancialmente e apenas registramos suas presenças pela fraca impressão sensorial que nos causam; a relação situa-se num plano humanitário, social, desprovida dos interesses nobres e comuns que norteiam a construção de uma sólida amizade. Entretanto, outras há que, já nas primeiras palavras que nos dedicam, escritas ou verbais, tomam-nos de calorosa empatia, prenunciadora de interação fraterna e imorredoura como a que vivencio desde 1973, quando conheci meu amigo João Vicente, técnico em eletrônica. Nossa interação resultou de interesse meu por seus préstimos profissionais — a construção de um rádio-transmissor dos sinais do Código Morse.      

            Estávamos em plena vigência do Estado ditatorial, por isto, João me recomendou cautela no uso do equipamento, cujos sinais desautorizados pelo Dentel, poderiam ser detectados pelos organismos de vigilância e repressão política operado por militares.

             Daí em diante, minha presença mais freqüente na sua loja redundou no estreitamento dos nossos laços de amizade, tanto pela convergência de nossos interesses profissionais quanto pelas nossas afinidades no campo das idéias.

              João, homem de fala mansa, sempre sereno e seguro de si, cauteloso na sua leitura e visão de mundo, assim como na emissão das suas opiniões, revela na sua interação social notável equilíbrio, sensibilidade e maturidade espiritual.

              Pai e marido exemplar, João recebe e retribui carinhosamente a afeição da esposa e dos filhos, que se engajam e compartilham da sua luta pelo sustento da família. Assim, sua rotina diária de trabalho pode, eventualmente, se estender pela noite, madrugada e final de semana.

               Desapegado, seu amplo senso de liberdade e autoconfiança — assim como sua extraordinária capacidade de ultrapassar a transitoriedade do mundo atrelado aos cinco sentidos — lhe atribui a dádiva de penetrar na essência oculta das criações e criaturas; daí, seu profundo respeito pelos horizontes de compreensão e entendimento de mundo de seus semelhantes.

                Nossas conversas se enveredam pelos campos da ciência política, tecnologia, relações humanas, espiritualidade, educação, história geral e até pelo terreno minado das religiões.

                Autodidata, espírito indagador, pesquisador, João garimpa verdadeiras pérolas de sabedoria em fontes ignoradas ou desdenhadas por autores e historiadores referenciados e consagrados nos pedestais dos templos e das catedrais do saber. Leitor, de respeitável estirpe, jamais se impressiona com o êxtase dos mercenários da literatura; tampouco com a cultura demagógica, exibicionista e fútil de pseudos eruditos. 

                 Livre pensador, candeeiro do seu destino, João é magistral na apresentação das suas próprias idéias; mestre, falando de espiritualidade; um espírito, se ajustando a cada movimento da sinfonia evolutiva do Universo!

                 O sentimento que ora envolve meu coração não reflete, no seu âmago, a dor pela perda de um amigo — em virtude da minha concepção espiritualista de vida---- mas, um misto de alegria e saudade. Alegria por ter compartilhado e honradamente desfrutado da sua amizade e da sua confiança. Saudade de nossas longas e intermináveis conversas que, literalmente, traduziam nossos anseios de melhor compreensão do sentido da vida e do mundo fenomênico em que vivemos.

                  Mestre João Vicente! Meu companheiro de jornada! Meu amigo! Meu mestre! Até breve! Até mais!... 

    * CLÁUDIO ESTEVAM         

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