A TRANSCENDENTE
ESSÊNCIA DA AMIZADE *
Há pessoas
com as quais convivemos eventualmente ou circunstancialmente e apenas
registramos suas presenças pela fraca impressão sensorial que nos causam; a
relação situa-se num plano humanitário, social, desprovida dos interesses
nobres e comuns que norteiam a construção de uma sólida amizade. Entretanto,
outras há que, já nas primeiras palavras que nos dedicam, escritas ou verbais,
tomam-nos de calorosa empatia, prenunciadora de interação fraterna e
imorredoura como a que vivencio desde 1973, quando conheci meu amigo João
Vicente, técnico em eletrônica. Nossa interação resultou de interesse meu por
seus préstimos profissionais — a construção de um rádio-transmissor dos sinais
do Código Morse.
Estávamos
em plena vigência do Estado ditatorial, por isto, João me recomendou cautela no
uso do equipamento, cujos sinais desautorizados pelo Dentel, poderiam ser
detectados pelos organismos de vigilância e repressão política operado por
militares.
Daí em
diante, minha presença mais freqüente na sua loja redundou no estreitamento dos
nossos laços de amizade, tanto pela convergência de nossos interesses
profissionais quanto pelas nossas afinidades no campo das idéias.
João,
homem de fala mansa, sempre sereno e seguro de si, cauteloso na sua leitura e
visão de mundo, assim como na emissão das suas opiniões, revela na sua
interação social notável equilíbrio, sensibilidade e maturidade espiritual.
Pai e
marido exemplar, João recebe e retribui carinhosamente a afeição da esposa e
dos filhos, que se engajam e compartilham da sua luta pelo sustento da família.
Assim, sua rotina diária de trabalho pode, eventualmente, se estender pela
noite, madrugada e final de semana.
Desapegado, seu amplo senso de liberdade e autoconfiança — assim como
sua extraordinária capacidade de ultrapassar a transitoriedade do mundo
atrelado aos cinco sentidos — lhe atribui a dádiva de penetrar na essência
oculta das criações e criaturas; daí, seu profundo respeito pelos horizontes de
compreensão e entendimento de mundo de seus semelhantes.
Nossas
conversas se enveredam pelos campos da ciência política, tecnologia, relações
humanas, espiritualidade, educação, história geral e até pelo terreno minado das
religiões.
Autodidata, espírito indagador, pesquisador, João garimpa verdadeiras
pérolas de sabedoria em fontes ignoradas ou desdenhadas por autores e
historiadores referenciados e consagrados nos pedestais dos templos e das
catedrais do saber. Leitor, de respeitável estirpe, jamais se impressiona com o
êxtase dos mercenários da literatura; tampouco com a cultura demagógica,
exibicionista e fútil de pseudos eruditos.
Livre
pensador, candeeiro do seu destino, João é magistral na apresentação das suas
próprias idéias; mestre, falando de espiritualidade; um espírito, se ajustando
a cada movimento da sinfonia evolutiva do Universo!
O
sentimento que ora envolve meu coração não reflete, no seu âmago, a dor pela
perda de um amigo — em virtude da minha concepção espiritualista de vida----
mas, um misto de alegria e saudade. Alegria por ter compartilhado e
honradamente desfrutado da sua amizade e da sua confiança. Saudade de nossas
longas e intermináveis conversas que, literalmente, traduziam nossos anseios de
melhor compreensão do sentido da vida e do mundo fenomênico em que vivemos.
Mestre João Vicente! Meu companheiro de jornada! Meu amigo! Meu mestre!
Até breve! Até mais!...
* CLÁUDIO ESTEVAM
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